domingo, 1 de novembro de 2009

Sobre o fim.

Você me perde todo dia e nem toma conhecimento
que é quando vai embora
quando diz que já é hora de seguir o pó no vento
perda que não recupera
quando fica na espera feito estátua de cimento,
Me perde e não percebe
que é quando calo minha voz
enquanto desato os nós que uniam nossas peles
quando eu troco seus carinhos por espelhos e espinhos
e me perde um pouco mais, toda vez que chega
e pede pra eu deixar isso pra lá
pra eu deitar em outro lugar
pra eu achar outro caminho,

Você me perde, e até acho que prefere desse jeito
que esfrie no meu peito
o fogo que aqui havia
[e aos poucos, acredite, esse amor aqui esfria]
me perde por compaixão, por besteira, por razão
me perde por vaidade, por vil infantilidade
me perde por não ligar
me perde no dia-a-dia
mas acho que é o que queria: plantar insensibilidade
me perde quando diz meu nome como fosse só um nome...
você me perde, mas nem sabe
que a covardia é um dom
- Invejo sua liberdade!

[,minhas]

domingo, 18 de outubro de 2009

"E apesar do meu medo, há em mim, uma paz enorme que eu chamo de felicidade."

[Caio Fernando de Abreu]

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Beijo.

Minha boca
[lábios, dentes e saliva]
em sua boca
sente ser muito mais viva;
[,minhas]

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Não consigo mais aceitar relações pela metade. Em outras palavras, raspas e restos não me interessam.

[Caio Fernando de Abreu]

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Sobre o que é meu.

Hoje, meu coração está nublado
e planeja uma chuva, de tarde
pra regar amores sepultados
e apagar toda chama que arde
está cinza, sangrando, cansado
assovia a pior despedida...
não se lembra onde acabou a vida
nem se um dia viveu animado
não quer mais costurar as feridas
não quer mais planejar o futuro
nem pensar se existem saídas
confessa ser muito imaturo
confessa ser, sim, suicida
medíocre, amargo e inseguro.


[,minhas]


terça-feira, 6 de outubro de 2009

Um brincar de amar.

Vá brincar com seus amores inventados
finja ser a mais feliz dentre as mortais
colha rosas e gerânios bem cuidados
pra um buquê vermelho, branco e lilás
Escreva cartas que não mandará jamais
confessando que se encontra apaixonada
invente tudo, mentiras bem rascunhadas
já que a vida não sorri em seus umbrais!

[, minhas]

domingo, 4 de outubro de 2009

"Só vou perguntar porque você se foi, se sabia que haveria uma distância, e que na distância a gente perde ou esquece tudo aquilo que construiu junto. E esquece sabendo que está esquecendo."
[Caio Fernando de Abreu]

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O dia.

Não quero muitos anos de vida, quero dias bem vividos!
Não quero nem achar sentido, desde que me sinta viva.
Faz tempo que não me esquivo dos riscos e tentações,
Quero beber emoções e comer pura euforia,
Não quero muitos dias, mas que cada um que eu tenha
Faça queimar como lenha as coisas da minha alma
Não faço questão de calma, às vezes quero desespero
Mesmo em dias hostis, sou uma mistura feliz de escassez e exagero.
[,minhas]


terça-feira, 29 de setembro de 2009

Convite.

Deseja trilhar mesmo esse caminho?
Você quer pisar o solo que eu piso?
Eu juro que depois desses espinhos
e menos de meia dúzia de infernos,
tem mais de cento e vinte paraísos...

[,minhas]
O amor é insaciável. Quanto mais obtém mais quer. Diferente da amizade que não aposta alto e se contenta em proteger o que obteve em vida. A amizade larga a roleta ao empenhar um único lance. O amor não. O amor se endivida até pedir falência. O amor tem uma fome obscena, pois devora a própria memória se necessário, devora a própria imaginação se preciso.

[Fabricio Carpinejar]


segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Fragilidade

Não é possível evitar fatalidade
e ser repleta em tanta fome ou vontade
sustentar-se, imponente, lá no topo
e fingir que se é forte [só um pouco].
É tão difícil lidar com a fragilidade
dos momentos em que a gente é quase um sopro...

[,minhas]

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Mergulho no cheiro que não defino, você me embala dentro dos seus braços e você me beija e você me aperta e você me aquieta repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem ...

[Caio Fernando Abreu]

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Para Esquecer

Não se ensina amar a quem não sabe
Não se ensina enxergar quem nasceu cego
Não se ensina ser reto um ziguezague
Não se ensina ser "id" o "superego"

Não se ensina ser doce o que é amargo
Não se ensina ser reto o que é torto
Não se ensina ser vivo o que é morto
muito menos, estreito o que é largo

Não se ensina alicerce a voar
Não se ensina ser duro o que é suave
Não se ensina ser belo o que é vulgar

Não se ensina estátua ter saudade
Não se ensina uma pedra a amar
Não se ensina a mentira ser verdade.


[,minhas]

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Não vejo o amor sem a admiração. Admirar é desejar ser igual estando junto. Admirar-se. Admirar sua lealdade com os amigos. Admirar seu jeito esforçado de assumir as contas. Admirar sua masculinidade em sobrecarregar no abraço. Admirar seu riso infantil, sua ingenuidade no tropeço. Admirar sua vivacidade em brincar. Admirar, admirar-se. Admirar seu temperamento sereno em noites de chuva. Admirar sua inquietude para sair com o sol. Admirar sua concentração numa música nova. Admirar seu nervosismo nas provas, nos concursos, nos exames do trabalho. Admirar sua letra com ânsias de terminar. Admirar sua falta de jeito em dançar, compensada pela alegria de estar contigo. Admirar seu modo de transar. Admirar o perfeccionismo que o impede de ser totalmente seu. Admirar suas mentiras encabuladas. Admirar, admirar-se. Admirar sua disposição em ser mais velho no medo e ser mais novo no aniversário.Admirar suas palavras de amor, incompreensíveis, mas terrivelmente musicais, e dizer "não entendi", para escutar outra vez. Admirar quando gosta de um livro e me conta tudo como se eu nunca fosse ler. Admirar quando fica bêbado,e desculpa-se por aquilo que não fez. Admirar sua barba por fazer . Admirar quando me busca antes de pedir.
-
"Pode-se admirar um homem sem amá-lo. Mas não amar um homem sem admirá-lo".
-
[Fabricio Carpinejar (Com adaptações)]

sábado, 19 de setembro de 2009

No fim.

É vazia a mão que trago, trêmula e indecisa
É vazia e imprecisa a vontade do meu peito
É vazio até o leito em que minha fronte repousa
É vazia a dor que pousa no ninho da minha calma
É vazia a minha alma e todas suas tentativas
É vazia e nada viva a estrada que sigo agora
É vazio o amor que outrora era doce e necessário
É frio como um caixão,
É vazio o coração
Que já foi um relicário.

[,minhas]

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas; mas dessas centenas, amo apenas um. O outro pelo qual estou apaixonado me designa e especialidade do meu desejo. Esta escolha, tão rigorosa que só retém o Único, estabelece, por assim dizer, a diferença entre a transferência analítica e a transferência amorosa; uma é universal, a outra é específica. Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras), para que eu encontre a Imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis o grande enigma do qual nunca terei a solução: por que desejo esse? Por que o desejo por tanto tempo, languidamente? É ele inteiro que desejo (uma silhueta, uma forma, uma aparência)? Ou apenas uma parte desse corpo? E, nesse caso, o que, nesse corpo amado, tem a tendência de fetiche em mim? Que porção, talvez incrivelmente pequena, que acidente? O corte de uma unha, um dente um pouquinho quebrado obliquamente, uma mecha, uma maneira de fumar afastando os dedos para falar? De todos esses relevos do corpo tenho vontade de dizer que são adoráveis. Adorável quer dizer: este é o meu desejo, tanto que único: “É isso! Exatamente isso (que amo)!” No entanto, quanto mais experimento a especialidade do meu desejo, menos posso nomeá-la; à precisão do alvo corresponde um estremecimento do nome; o próprio do desejo não pode produzir um impróprio do enunciado: deste fracasso da linguagem, só resta um vestígio: a palavra “adorável” (a boa tradução de “adorável” seria ipse latino: é ele, ele mesmo em pessoa).


[Roland Barthes]

terça-feira, 15 de setembro de 2009

[...] Silêncio, ando obcecado por silêncio. Um silêncio que te permita ouvir o ruído do vento. E o bater do coração. E se possível isso que chamamos de Deus, existindo devagarinho em cada coisa. Existe sim.

[Caio Fernando de Abreu]

sábado, 12 de setembro de 2009

Conhece-me

Não há como conhecer-me pelas costas
se meus olhos contam mais da minha vida
que as palavras que eu rascunho,
e que sei que você gosta,
bem mais que os boatos, dessas bocas atrevidas,

Não há como conhecer-me sem tocar-me
pois minha pele tem uma temperatura
que dispara o mais infame dos alarmes
e faz fogo e luz na noite mais escura

Não há como conhecer-me à revelia
só pelo que corre no disse-me-disse
das beatas, cultivando suas manias

Não há como conhecer-me sem despir-se
a nudez é de essencial valia, e lembre-se,
amar é experiência, não crendice...

[,minhas]
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!

[Clarice Lispector - Para não esquecer]

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

"...remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos."


[Caio Fernando de Abreu]

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Saudade...

"Mas que nó sufocante na garganta
da lembrança dos beijos já dados
Como fosse assim, saudade tanta
Com vontade e tormento misturados
Que aperto no peito, lancinante
Como se uma navalha que me corta
Por não ter, minha alma queda morta
Por querer, minha vida radiante...
Por que leio essas cartas do passado?
Por que busco, nos meus sonhos tua boca?
Por que enxergo melhor com olho fechado?
Por que perto de ti fico acuada?
Por que a vida sem ti parece pouca?
E vale mais que diamante, ao teu lado?"

[,minhas]

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Primavera

Os dias de sol não são eternos
como não é eterna a primavera
uns dias, verão, outros, inverno
dias de grafite e de aquarela

Sorrisos não duram para sempre
às vezes a lágrima aparece
tem dor que não sai nem com uma prece
mas nem dor assim é permanente

as flores mais belas, murcham um dia
as juras, então, perdem sentido
e então nos sentimos tão perdidos
mas até a mais dura agonia
não fica pra sempre, e a alegria
faz o que era cinza, colorido.

[,minhas]

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Dizem que a gente tem o que precisa. Não o que a gente quer. Tudo bem. Eu não preciso de muito. Eu não quero muito. Eu quero mais. Mais paz. Mais saúde.Mais dinheiro. Mais poesia. Mais verdade. Mais harmonia. Mais noites bem dormidas. Mais noites em claro. Mais eu. Mais você. Mais sorrisos, beijos e aquela rima grudada na boca. Eu quero nós. Mais nós. Grudados. Enrolados. Amarrados. Jogados no tapete da sala. Nós que não atam nem desatam. Eu quero pouco e quero mais. Quero você. Quero eu. Quero domingos de manhã. Quero cama desarrumada, lençol, café e travesseiro. Quero seu beijo. Quero seu cheiro. Quero aquele olhar que não cansa, o desejo que escorre pela boca e o minuto no segundo seguinte: nada é muito quando é demais.

[Caio Fernando Abreu]

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Sonho

Se eu pudesse sonhar o que eu quisesse
sonho desses que não diferencia
o que sente real ou fantasia
tão carnal que a pele reconhece
tão presente que a pele arrepia
tão profundo que alma até esquece
que o gosto que sente é só quimera
eu teria, então, o gosto dele
a saliva e o fim da calmaria
sua boca que a minha,há tanto espera...
o seu beijo, [trovão, rima e canela]
meus demônios pedindo alforria...

[,minhas]

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Em mim;

Já penso que ser sozinha é minha essência
logo eu, que em essência, sempre sorri
mas é tanto que me ocorre essa dormência
que não dá pra esquivar e nem fugir;

Estou quase concordando que aqui,
nesse frio inexplicável da ausência
é que faço minha morada, e que a doença
é meu estado, mesmo se a boca sorri;

Já duvido que a paz que escrevi
há tanto tempo, e com tanta insistência
exista, além das velhas lendas que ouvi

Já nem sei se há, na vida, essa urgência
de cortar com a precisão de um bisturi
o que é amargo, e ser só doce experiência;

[,minhas]

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Sobre o sentir do gosto amargo

Do amargo que fica após o trago
de uma vida vivida improvisada
pelo adiamento, nunca pago
da alegria esquecida, abandonada;

Desse gosto de amônia que nos resta
e do pó rude e áspero nas mãos
desse medo que vem no coração
quando acaba a música da festa

Desse peito vazio de abandono
que é tudo que fica, ao fim do dia
quando tudo nos vem, menos o sono

Desse som de silêncio e de agonia
é que as folhas caídas no outono
perpetuam, na minha covardia;

[, minhas]

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Quero te conhecer menos...Que seja dispensado de tua ânsia em me contar as novidades, de tua loucura em me agüentar, de tua sabedoria em me acalmar, de tua mania em dormir enroscado. Não me mande mais nada. Não me dê lembranças, músicas, poemas, sapatos, isqueiros, não quero peregrinar as mãos em tuas coisas como se fosse tua mão esperando na mesa. Tiras proveito da consciência que vou formando de ti enquanto me desinformo do mundo. Não desejo descobrir o que tocaste senão amarei muito mais do que se tivesse tocado. Não me fales "gosto daquilo" que já estarei gostando junto. Evite comentários. Não me digas "vamos naquele restaurante" que será mais um lugar para te esperar. Controla essa mania de se espalhar por tudo, de botar teu cheiro por dentro de minha boca. Não reclames do que não fiz, que farei de novo para chamar tua atenção. Quero te conhecer menos para não sofrer depois tanto tua perda.
[Fabrício Carpinejar]

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Presente.

Eu queria mais que o canto da sereia
que atrai os pescadores desatentos
morte e gozo num processo uno e lento
esperança e sangue correndo nas veias

Eu queria muito mais do que pegadas
apagadas sobre o branco da areia
de quem vai, com a promessa anunciada
de que volta antes que se sirva a ceia

Eu queria, como mosca, presa à teia
de uma aranha apaixonada e encantadora
o veneno em boa dose redentora

Eu queria, como a palma que tateia
a pele nua, armadilha tentadora
presa eterna em beijos teus, feitos cadeia...

[,minhas]

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Embriaguez

É de dias assim que eu me embriago
de foguetes no céu de cor lilás
de fogueira, rojões e muito mais
de lembranças de você
de sorriso e olhar vago
de um tempo...
Hoje sou só saudade
e bebo o prazer que isso traz.
[,minhas]

domingo, 2 de agosto de 2009

"Era frio. Não sei dizer se fazia mais frio do lado de fora da minha blusa ou dentro do meu coração. Provavelmente competiam."

[Caio Fernando de Abreu]

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Chuva

Tomo as rédeas da tempestade com punhos firmes
[garanto]
A transformo em chuva fina, em água calma e divina,
Pras flores que hoje planto;
Isso aqui já foi ruína, nem faz tanto tempo, isso...
Já foi solo movediço, já foi chão de desperdício, mas agora é diferente
Quero a coisa simplesmente, sem segundas intenções
Quero um aperto de mão, quero um abraço sincero
não é muito o que eu espero, nem acho que espero em vão...
E é por isso que eu, suave, ordeno, que a tempestade
Que em tempos tão recentes, destruiu a paz urgente,
Agora seja só chuva, que me caia como luva,
Saiba, não planto semente de dores,
E a chuva, há de fazer o que eu plantei,
Florescer, um campo de belas flores

[,minhas]

terça-feira, 28 de julho de 2009

Declaração.

O que mais me encanta nela é sua capacidade de colorir qualquer ambiente com uma alegria de viver sem igual, carisma, e um dom de transmitir boas energias aos que a cercam. Basta uns minutos com ela para o meu humor melhorar. Além de tudo é um ser humano fantástico, de uma leveza encantadora e sentimentos nobres.

Vai lá:
http://risosememoriask.blogspot.com/


segunda-feira, 27 de julho de 2009

"Lembrei que tinha lido em algum lugar que a dor é a única emoção que não usa máscara. Não tínhamos dor, mas aquela coisa daquela hora que a gente estava sentindo, e eu nem sei se era alegria, também não usava máscara. Então pensei devagar que era proibido ou perigoso não usar máscara".

[Caio Fernando Abreu]

domingo, 26 de julho de 2009

Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Esse impulso, às vezes cruel, não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como "estou contente outra vez". Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". (...)Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.(...)Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça."

[Caio Fernando de Abreu]

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A morte do amor.


O amor não morre de golpes, poeta! Na pior das condições, se esconde, se protege, fica apagado, bege, se recua, aquieta, mas não morre, nunca, de pedradas, nem de susto, nem assim, fica arredio, cauteloso, machucado, pesaroso, encolhido, acha ruim, mas não morre, não, meu caro; Morte de amor é fato raro, demanda bem mais esforço, não é assim, por acidente, que um amor tão reluzente, se apagará, meu bom moço,inda que vossa adorada, se afaste, assim, triste, calada, silenciosa e sangrando, em nenhuma madrugada estratejaste coisa errada, ou elaboraste algum plano,não saíste aos quatro ventos confessando sentimentos, não denunciaste amores , não partilhaste as dores, nem ecoaste lamentos, mas se ela crê assim, um dia o engano tem fim e do amor, triste e calado, dá-se ao renascimento...

[,minhas]

sábado, 11 de julho de 2009

Segredo?

Você nem sabe...
se soubesse, eu nem sei o que seria
se eu contasse o que eu sinto todo dia
o quanto o que existe em mim é muito seu
talvez com tanto que há em mim, assustaria
e tantas cartas confessórias que não leu
feitas com tinta invisível de alegria
[se soubesse, eu nem sei o que seria]
é dessas coisas que traz sol em noite fria
e que abraça a gente forte, mesmo só
que contamina fácil, feito epidemia
junta almas, ata, amarra feito nó
que faz tremer a carne fraca, é mania
é santidade mista com pornografia
se soubesse o que se passa aqui por dentro
e lesse cada letra desse sentimento
não sei, mas acho, que então me entenderia...


[,minhas]

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Arranjo

Eu nunca sei que canção assoviar
quando o sol se põe sobre a minha dor
quando falta vontade, força e ar
e no caminho de pedras não há flor
Eu não sei o que canto, no refrão
muito menos o que improvisar
quando é hora do coro da canção
vem o solo, eu sozinha "mi, dó, lá"
Meu arpejo é um desejo diminuto
meu arranjo é um beijo que não dei
meu acorde é menor, em tom de luto
não há força, decreto, mando ou lei
habeas corpus e nem salvo-conduto
que me livre saber da dor que sei.
[,minhas]

quarta-feira, 8 de julho de 2009

"Mesmo sendo escritor, ouvia mais música do que abria livros; de uns tempos pra cá, não queria mais saber de romances, novelas, contos, muito embora os escrevesse. Quando sentia agora a necessidade da palavra, ia direto a algum poema. Para ele a poesia era um verbo em estado musical, se algum sentido ela expressava este não vinha de outra coisa que não da melodia deslizante pelas entrelinhas feito um véu d'agua, que mal, mal se precebe."


[Joao Gilberto Noll]

terça-feira, 30 de junho de 2009

[...] e eu não tive tempo de dizer, que quando a gente precisa que alguém fique, a gente constrói qualquer coisa, até um castelo.

Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Beijo roubado.

Quem dera fosse regra essa sua teimosia
e ficasse pra sempre, sempre que eu mandasse você embora
quem dera fosse regra toda essa alegria
que sempre arrebatasse minha alma, como agora.
Quem dera cada beijo, fosse assim, sempre roubado
e o poema que eu escrevo encontrasse quem procura,
Quem dera eu conseguisse, com sorriso exagerado

causar mesmo sorriso, em sua boca, com doçura.
Quem dera a cor dos olhos, coincidissem com o brilho
do que traz luz, e voz, sempre que lembro do seu nome
Quem dera achasse rumo esse meu peito andarilho.
Espero um beijo só, roubado em plena fome,
seu corpo, vestindo esse meu corpo maltrapilho
em dia, madrugada, tarde, vida, noite insone...

[,minhas]

domingo, 28 de junho de 2009

Vem pra cá. Vem, vou te passar pro papel e sublinhar seus sujeitos. Vem pra mim. Vem me ter. Vem pra eu te escrever. Vem pro meu mundo incerto e ingressa nele sem estado prévio de partida. Vem e não volta mais. Vem e me tira a paz. Não precisa dizer nada. Só fique aqui comigo até eu me sentir menos perdida. Fique aqui e me abrace forte. Fique aqui e me prove. Consegue sentir meus gostos? Então sinta! Sinta o gosto de cada centímetro da minha pele. Eu quero perder o juízo e o controle, quero perder o ar e soar, quero muito de nós, quero mais e quero sem fim. Mas quando você for embora, por favor, não me deixe sentir dor. Eu não quero dor. Não agora. Por isso, eu te peço: me leva junto. Me leva. Me salva nas suas entrelinhas e não me tira de lá. Não me devolve. Me rouba de mim e me faz como refém para sempre da nossa louca história de amor. Quero me perder na sua rima, me envolver na sua letra, me enlaçar no seu refrão e virar sua música favorita. Me rouba o coração, a solidão, as palavras e os sentidos. Me rouba tudo. Me leva por inteiro. Eu deixo.


[Tainá Facó] - grifos meus!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Mistura

Se ele se mistura a mim, um dia desses, de um jeito que ninguém separaria, se a gente, um no outro, se atrevesse, o que atrevem os felizes, todo dia...
Se de tão mixado ao outro, então seria, eu no espelho, sim, que ele veria, e nunca mais separados, ali, parados!
Ah, se a mim se misturasse, eu saberia, que no espelho nunca mais encontraria, um eu sozinho me assistindo padecer...

[, minhas]

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Acho engraçada a forma que falas, das coisas tuas, de teus planos, como me colocas em teus sonhos, mesmo sem malicia alguma; esse teu diz-não-diz que me ama que escapa nas entrelinhas dos teus gestos e de teu olhar; é lindo como você me nega e me observa sem perceber; é lindo como você se entrega e não repara eu me render;

(Cáh Morandi)

sábado, 20 de junho de 2009

Plantio de emoções.

Vou plantar no jardim das tempestades,
umas brisas, sementes de esperança,
como se cada passo fosse dança,
como se cada dia, uma saudade.
Vou fazer do seu nome, liberdade,
pra minha boca chamar em noites frias,
é que, mesmo calado, o peito brade,
como hino de paz e calmaria.
Vou fazer de seus lábios, minha meta,
como quem busca água e comida,
em cidade destruída e deserta.
Vou fazer de seu colo, a medida,
mais exata pra minha acolhida,
quando a vida for cinza e incerta.

[, minhas]

terça-feira, 16 de junho de 2009

"...Livrar-se de uma lembrança é um processo lento, impossível de programar. Ninguém consegue tirar alguém da cabeça na hora que quer, e às vezes a única solução é inverter o jogo: em vez de tentar não pensar na pessoa, esgotar a dor. Permitir-se recordar, chorar, ter saudade. Um dia a ferida cicatriza e você, de tão acostumada com ela, acaba por esquecê-la. Com fórceps é que a criatura não sai."

Martha Medeiros

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Argumento para acabar com a dor. [ A procura]

Preciso de outro argumento pra negociar com a dor
seja que argumento for, que fale do meu cansaço
que não fui, nem sou de aço, que os meus ombros se cansaram
que as exigências não param, que a vida atropela, pisa,
que minha cabeça precisa, de um colo acolhedor
que ter coração assim, tão amador, é como, sem anestesia,
arrancarem, por covardia, a pele toda da gente
e não há humano no mundo, que suporte, lá no fundo
sendo em um instante dor, nesse instante, ser sorridente.

[,minhas]

segunda-feira, 8 de junho de 2009

08/06/09

Saudade é ainda poder sentir.

sábado, 6 de junho de 2009

Ela

Tinha vontade dobradinha, silenciosa, uma rua, e um beijo do outro lado
Um menino encolhido assustado, poema aqui, lá, reticência, riso e prosa
Tinha pegadas, mas não tinha nenhum mapa
Tinha sol, e eclipse também
Tinha dia e noite, mas não tinha data
E um homem reticente por alguém...
Tinha sorriso largo em dias de abril, um não saber, que era tudo que sabia
Um coração confuso, bobo e arredio
Tinha uma espécie de segredo dia-a-dia
E uma esperança tão graciosa e pueril
Que era impossível colocar na poesia.

[,minhas]

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Se...

Se houvesse em tua boca uma palavra,
que fizesse esvair o meu silêncio,
se tua voz fosse qual um alvo lenço
a enxugar a vontade que me dava...

Se do que foi bilhete, me tocasse
pele e pele [papel e envelope]
e teus lábios, caneta, em minha face
desenham teu nome em doce golpe

Sei que tudo no mundo,
perderia o poder de prender-me a atenção
diante teu gosto, movimento, tez...
esforço qualquer seria em vão.


[, minhas]

domingo, 31 de maio de 2009

Disfarce

Desses dias que minh'alma é adrenalina
e que meu corpo é inquieto e impreciso
vou pichando toda a rua de alegria
vou gritando como é linda a luz do dia
e de noite perco o rumo e o juízo
faço cócegas na vil melancolia
e assusto a tristeza com meu riso;

Desses dias que me falta a boca dele
eu beijo então, sem medo aqui, essa saudade
fico olhando se o encontro na janela
onde passam meus olhos [como aquarela]
E em muros brancos de vontade
vou pintando o nome meu e o nome dele
um coração em cor vermelha e amarela
e uma flecha de cupido por vaidade;

[,minhas]

sábado, 30 de maio de 2009

"Penso, com mágoa, que o relacionamento da gente sempre foi um tanto unilateral, sei lá, não quero ser injusto nem nada - apenas me ferem muito esses teus silêncios."

[Caio Fernando Abreu]

quarta-feira, 27 de maio de 2009

"Que eu possa respeitar opiniões diferentes da minha. Que eu possa me desculpar antes do ódio. Que eu possa escrever cartas de amor de repente. Que eu possa viajar para adorar a distância. Que eu possa voltar para dizer o que não tive coragem. Que eu pense em meu amor ao atravessar a rua. Que eu pense na rua ao atravessar o amor. Que eu dê conselhos sem condenar. Que eu possa tomar banho de cachoeira. Que eu seja a vontade de rir. Que eu possa chorar ao assistir filmes. Que eu não seduza para confundir. Que eu seduza para iluminar. Que eu não sacrifique a confiança pela covardia. Que eu tenha dúvidas, melhor do que certezas e falir com elas. Que eu faça amizades falando do tempo. Que eu possa brincar mais com meu filho sem contar as horas. Que eu possa amar mais sem contar as horas. Que eu use somente as palavras que tenham sentido. Que eu prove a comida nas panelas. Que transforme a raiva em vontade de me entender. Que eu possa soltar os vaga-lumes que prendi em potes. Que eu me lembre de ser feliz enquanto ainda estou vivo."

[Fabricio Carpinejar]

terça-feira, 26 de maio de 2009

Um outro dia.

Ele veio e perguntou o que eu queria
trouxe um sorriso meu, nada mais
como fossem os meus lábios uns umbrais
sob os quais repousa inquieta a euforia;

Ele veio e perguntou o que eu queria
sem poder me revelar, sorri de novo
rio como quem faz outra poesia
e escrevo ao mesmo tempo em que me movo
peito adentro, invasão , outra paixão, outro dia.

[,minhas]

sábado, 23 de maio de 2009

Ilusão de ótica

Eu não sou o que pensas existir,
sou apenas a idéia a colorir,
esses olhos que tua vontade come...

[,minhas]

sexta-feira, 22 de maio de 2009

"Que seja um amor inacabado. Um amor que não dá trégua para voltar atrás. Um amor que não oferece chance para ir à frente. Um amor que fica no mesmo lugar, que não traz sorte nem azar, traz o desespero de ser amado um pouco mais."

(Fabricio Carpinejar)

terça-feira, 19 de maio de 2009

Ausência

Sua ausência é a falta de comida;
Sua presença é o prato bem servido;
Sua ausência é o bilhete nunca lido sobre a mesa, avisando da partida;
Sua presença é uma carta atrevida;
Sua ausência é uma coisa morna e lenta;
Sua presença é uma festa barulhenta;
Sua ausência é silêncio, agonia, é relento em madrugada fria;
Sua presença é o sol do amanhecer;
Sua ausência é a tristeza de perder;
Sua presença é o mais lindo arco-íris;
Sua ausência é a força do desprezo;
Sua presença é o abraço necessário;
Sua ausência é a dor de quem está presa;
Completando, sozinha, este tal intinerario.


[, minhas]

domingo, 17 de maio de 2009

Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue. Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo. Agonia é quando o maestro de você se perde completamente. Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada especialmente. Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado. Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo. Desejo é uma boca com sede. Paixão é quando apesar da placa "perigo" o desejo vai e entra.

(Mania de Explicação - Adriana Falcão)

sábado, 16 de maio de 2009

Vazio

Uma letra,

Outra letra,

E um poema;

Uma ausência,

Outra ausência,

Mas que pena!

[,minhas]

quinta-feira, 14 de maio de 2009

"Fico quieto. Primeiro que paixão deve ser coisa discreta, calada, centrada. Se você começa a espalhar aos sete ventos, crau, dá errado. Isso porque ao contar a gente tem a tendência a, digamos, "embonitar" a coisa, e portanto distanciar-se dela, apaixonando-se mais pelo supor-se apaixonado do que pelo objeto da paixão propriamente dito. Sei que é complicado, mas contar falsifica, é isso que quero dizer — e pensando mais longe, por isso mesmo literatura é sempre fraude. Quanto mais não-dita, melhor a paixão.

(Caio Fernando Abreu)