quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Dizem que a gente tem o que precisa. Não o que a gente quer. Tudo bem. Eu não preciso de muito. Eu não quero muito. Eu quero mais. Mais paz. Mais saúde.Mais dinheiro. Mais poesia. Mais verdade. Mais harmonia. Mais noites bem dormidas. Mais noites em claro. Mais eu. Mais você. Mais sorrisos, beijos e aquela rima grudada na boca. Eu quero nós. Mais nós. Grudados. Enrolados. Amarrados. Jogados no tapete da sala. Nós que não atam nem desatam. Eu quero pouco e quero mais. Quero você. Quero eu. Quero domingos de manhã. Quero cama desarrumada, lençol, café e travesseiro. Quero seu beijo. Quero seu cheiro. Quero aquele olhar que não cansa, o desejo que escorre pela boca e o minuto no segundo seguinte: nada é muito quando é demais.

[Caio Fernando Abreu]

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Sonho

Se eu pudesse sonhar o que eu quisesse
sonho desses que não diferencia
o que sente real ou fantasia
tão carnal que a pele reconhece
tão presente que a pele arrepia
tão profundo que alma até esquece
que o gosto que sente é só quimera
eu teria, então, o gosto dele
a saliva e o fim da calmaria
sua boca que a minha,há tanto espera...
o seu beijo, [trovão, rima e canela]
meus demônios pedindo alforria...

[,minhas]

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Em mim;

Já penso que ser sozinha é minha essência
logo eu, que em essência, sempre sorri
mas é tanto que me ocorre essa dormência
que não dá pra esquivar e nem fugir;

Estou quase concordando que aqui,
nesse frio inexplicável da ausência
é que faço minha morada, e que a doença
é meu estado, mesmo se a boca sorri;

Já duvido que a paz que escrevi
há tanto tempo, e com tanta insistência
exista, além das velhas lendas que ouvi

Já nem sei se há, na vida, essa urgência
de cortar com a precisão de um bisturi
o que é amargo, e ser só doce experiência;

[,minhas]

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Sobre o sentir do gosto amargo

Do amargo que fica após o trago
de uma vida vivida improvisada
pelo adiamento, nunca pago
da alegria esquecida, abandonada;

Desse gosto de amônia que nos resta
e do pó rude e áspero nas mãos
desse medo que vem no coração
quando acaba a música da festa

Desse peito vazio de abandono
que é tudo que fica, ao fim do dia
quando tudo nos vem, menos o sono

Desse som de silêncio e de agonia
é que as folhas caídas no outono
perpetuam, na minha covardia;

[, minhas]

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Quero te conhecer menos...Que seja dispensado de tua ânsia em me contar as novidades, de tua loucura em me agüentar, de tua sabedoria em me acalmar, de tua mania em dormir enroscado. Não me mande mais nada. Não me dê lembranças, músicas, poemas, sapatos, isqueiros, não quero peregrinar as mãos em tuas coisas como se fosse tua mão esperando na mesa. Tiras proveito da consciência que vou formando de ti enquanto me desinformo do mundo. Não desejo descobrir o que tocaste senão amarei muito mais do que se tivesse tocado. Não me fales "gosto daquilo" que já estarei gostando junto. Evite comentários. Não me digas "vamos naquele restaurante" que será mais um lugar para te esperar. Controla essa mania de se espalhar por tudo, de botar teu cheiro por dentro de minha boca. Não reclames do que não fiz, que farei de novo para chamar tua atenção. Quero te conhecer menos para não sofrer depois tanto tua perda.
[Fabrício Carpinejar]

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Presente.

Eu queria mais que o canto da sereia
que atrai os pescadores desatentos
morte e gozo num processo uno e lento
esperança e sangue correndo nas veias

Eu queria muito mais do que pegadas
apagadas sobre o branco da areia
de quem vai, com a promessa anunciada
de que volta antes que se sirva a ceia

Eu queria, como mosca, presa à teia
de uma aranha apaixonada e encantadora
o veneno em boa dose redentora

Eu queria, como a palma que tateia
a pele nua, armadilha tentadora
presa eterna em beijos teus, feitos cadeia...

[,minhas]

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Embriaguez

É de dias assim que eu me embriago
de foguetes no céu de cor lilás
de fogueira, rojões e muito mais
de lembranças de você
de sorriso e olhar vago
de um tempo...
Hoje sou só saudade
e bebo o prazer que isso traz.
[,minhas]

domingo, 2 de agosto de 2009

"Era frio. Não sei dizer se fazia mais frio do lado de fora da minha blusa ou dentro do meu coração. Provavelmente competiam."

[Caio Fernando de Abreu]