terça-feira, 29 de setembro de 2009

Convite.

Deseja trilhar mesmo esse caminho?
Você quer pisar o solo que eu piso?
Eu juro que depois desses espinhos
e menos de meia dúzia de infernos,
tem mais de cento e vinte paraísos...

[,minhas]
O amor é insaciável. Quanto mais obtém mais quer. Diferente da amizade que não aposta alto e se contenta em proteger o que obteve em vida. A amizade larga a roleta ao empenhar um único lance. O amor não. O amor se endivida até pedir falência. O amor tem uma fome obscena, pois devora a própria memória se necessário, devora a própria imaginação se preciso.

[Fabricio Carpinejar]


segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Fragilidade

Não é possível evitar fatalidade
e ser repleta em tanta fome ou vontade
sustentar-se, imponente, lá no topo
e fingir que se é forte [só um pouco].
É tão difícil lidar com a fragilidade
dos momentos em que a gente é quase um sopro...

[,minhas]

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Mergulho no cheiro que não defino, você me embala dentro dos seus braços e você me beija e você me aperta e você me aquieta repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem ...

[Caio Fernando Abreu]

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Para Esquecer

Não se ensina amar a quem não sabe
Não se ensina enxergar quem nasceu cego
Não se ensina ser reto um ziguezague
Não se ensina ser "id" o "superego"

Não se ensina ser doce o que é amargo
Não se ensina ser reto o que é torto
Não se ensina ser vivo o que é morto
muito menos, estreito o que é largo

Não se ensina alicerce a voar
Não se ensina ser duro o que é suave
Não se ensina ser belo o que é vulgar

Não se ensina estátua ter saudade
Não se ensina uma pedra a amar
Não se ensina a mentira ser verdade.


[,minhas]

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Não vejo o amor sem a admiração. Admirar é desejar ser igual estando junto. Admirar-se. Admirar sua lealdade com os amigos. Admirar seu jeito esforçado de assumir as contas. Admirar sua masculinidade em sobrecarregar no abraço. Admirar seu riso infantil, sua ingenuidade no tropeço. Admirar sua vivacidade em brincar. Admirar, admirar-se. Admirar seu temperamento sereno em noites de chuva. Admirar sua inquietude para sair com o sol. Admirar sua concentração numa música nova. Admirar seu nervosismo nas provas, nos concursos, nos exames do trabalho. Admirar sua letra com ânsias de terminar. Admirar sua falta de jeito em dançar, compensada pela alegria de estar contigo. Admirar seu modo de transar. Admirar o perfeccionismo que o impede de ser totalmente seu. Admirar suas mentiras encabuladas. Admirar, admirar-se. Admirar sua disposição em ser mais velho no medo e ser mais novo no aniversário.Admirar suas palavras de amor, incompreensíveis, mas terrivelmente musicais, e dizer "não entendi", para escutar outra vez. Admirar quando gosta de um livro e me conta tudo como se eu nunca fosse ler. Admirar quando fica bêbado,e desculpa-se por aquilo que não fez. Admirar sua barba por fazer . Admirar quando me busca antes de pedir.
-
"Pode-se admirar um homem sem amá-lo. Mas não amar um homem sem admirá-lo".
-
[Fabricio Carpinejar (Com adaptações)]

sábado, 19 de setembro de 2009

No fim.

É vazia a mão que trago, trêmula e indecisa
É vazia e imprecisa a vontade do meu peito
É vazio até o leito em que minha fronte repousa
É vazia a dor que pousa no ninho da minha calma
É vazia a minha alma e todas suas tentativas
É vazia e nada viva a estrada que sigo agora
É vazio o amor que outrora era doce e necessário
É frio como um caixão,
É vazio o coração
Que já foi um relicário.

[,minhas]

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas; mas dessas centenas, amo apenas um. O outro pelo qual estou apaixonado me designa e especialidade do meu desejo. Esta escolha, tão rigorosa que só retém o Único, estabelece, por assim dizer, a diferença entre a transferência analítica e a transferência amorosa; uma é universal, a outra é específica. Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras), para que eu encontre a Imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis o grande enigma do qual nunca terei a solução: por que desejo esse? Por que o desejo por tanto tempo, languidamente? É ele inteiro que desejo (uma silhueta, uma forma, uma aparência)? Ou apenas uma parte desse corpo? E, nesse caso, o que, nesse corpo amado, tem a tendência de fetiche em mim? Que porção, talvez incrivelmente pequena, que acidente? O corte de uma unha, um dente um pouquinho quebrado obliquamente, uma mecha, uma maneira de fumar afastando os dedos para falar? De todos esses relevos do corpo tenho vontade de dizer que são adoráveis. Adorável quer dizer: este é o meu desejo, tanto que único: “É isso! Exatamente isso (que amo)!” No entanto, quanto mais experimento a especialidade do meu desejo, menos posso nomeá-la; à precisão do alvo corresponde um estremecimento do nome; o próprio do desejo não pode produzir um impróprio do enunciado: deste fracasso da linguagem, só resta um vestígio: a palavra “adorável” (a boa tradução de “adorável” seria ipse latino: é ele, ele mesmo em pessoa).


[Roland Barthes]

terça-feira, 15 de setembro de 2009

[...] Silêncio, ando obcecado por silêncio. Um silêncio que te permita ouvir o ruído do vento. E o bater do coração. E se possível isso que chamamos de Deus, existindo devagarinho em cada coisa. Existe sim.

[Caio Fernando de Abreu]

sábado, 12 de setembro de 2009

Conhece-me

Não há como conhecer-me pelas costas
se meus olhos contam mais da minha vida
que as palavras que eu rascunho,
e que sei que você gosta,
bem mais que os boatos, dessas bocas atrevidas,

Não há como conhecer-me sem tocar-me
pois minha pele tem uma temperatura
que dispara o mais infame dos alarmes
e faz fogo e luz na noite mais escura

Não há como conhecer-me à revelia
só pelo que corre no disse-me-disse
das beatas, cultivando suas manias

Não há como conhecer-me sem despir-se
a nudez é de essencial valia, e lembre-se,
amar é experiência, não crendice...

[,minhas]
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!

[Clarice Lispector - Para não esquecer]

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

"...remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos."


[Caio Fernando de Abreu]

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Saudade...

"Mas que nó sufocante na garganta
da lembrança dos beijos já dados
Como fosse assim, saudade tanta
Com vontade e tormento misturados
Que aperto no peito, lancinante
Como se uma navalha que me corta
Por não ter, minha alma queda morta
Por querer, minha vida radiante...
Por que leio essas cartas do passado?
Por que busco, nos meus sonhos tua boca?
Por que enxergo melhor com olho fechado?
Por que perto de ti fico acuada?
Por que a vida sem ti parece pouca?
E vale mais que diamante, ao teu lado?"

[,minhas]

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Primavera

Os dias de sol não são eternos
como não é eterna a primavera
uns dias, verão, outros, inverno
dias de grafite e de aquarela

Sorrisos não duram para sempre
às vezes a lágrima aparece
tem dor que não sai nem com uma prece
mas nem dor assim é permanente

as flores mais belas, murcham um dia
as juras, então, perdem sentido
e então nos sentimos tão perdidos
mas até a mais dura agonia
não fica pra sempre, e a alegria
faz o que era cinza, colorido.

[,minhas]