domingo, 29 de março de 2009

"Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo."
(Caio Fernando de Abreu)

sábado, 28 de março de 2009

Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já não me dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que a dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.
Respeite o silêncio a omissão,
A duvida, a ausência.
E meu movimento de deserção.
Abandonei o posto, rompi a corda, desacreditei de tudo.
Cansei de esperar que finalmente um dia, minha fotografia
fizesse jus ao seu criado-mudo.
-
(Flora Figueiredo, in: Calçada de Verão)

quinta-feira, 26 de março de 2009

Saudade.

Hoje não sei que valor me guia...
Não sei qual sentimento
Se amargor, se alegria
Se calma, se sofrimento
[que nas noites de relento,
me servem melhor a alma]
Se desespero, se calma,
Se inércia, se vontade,
Uma coisa eu sei por certo
que o que faz o meu deserto,
com certeza é a saudade...

[,minhas]

segunda-feira, 23 de março de 2009

"Que o amor me possa dar tudo que espero: a cálida manhã, o aflito, esquivo carinho, que se faça mais sincero quanto o meu corpo reclamá-lo vivo... Que me dê a alegria de uma infância molhada de um abril fresco e macio. Que me traga um perfume de distância, de frutos, flores, sombras quentes, frio... Que o amor me seja a luz doendo em lentas oscilações de adeus na montanha... Que o amor me seja a escada, o meu pomar, o pouso, as madrugadas friorentas, o corpo claro, a voz, a febre estranha, e o reino, e o reino para além do mar..."

(Alphonsus de Guimaraens Filho)




domingo, 22 de março de 2009

Escudo


Quanto cabe de destino e livre-arbítrio nisso tudo?
Desde quando nosso escudo nos projeta pra distância?
Quanto tempo, dessa dança, suporta minha paciência?
É castigo ou penitência essa vontade de ser dele?
Quanto disso é cela?
Quanto disso me dá asas?
Um dia isso tudo, eu sei, isso tudo passa...
Ou esse desejo que arde vira grito e extravasa...


[,minhas]

sexta-feira, 20 de março de 2009

"O que eu queria mesmo era um ombro amigo onde pudesse encostar a cabeça, ter uma mão passando na minha testa, uma outra mão perdida dentro da minha. O que eu queria era alguém que me recolhesse como um menino desorientado numa noite de tempestade me colocasse numa cama quente e fofa, me desse um chá de laranjeira e me contasse uma história. Uma história longa sobre um menino só e triste que achou, uma vez, durante uma noite de tempestade, alguém que cuidasse dele"

(Caio Fernando Abreu)

quinta-feira, 19 de março de 2009

"Ele gostava quando ela dizia sabe, nunca tive um papo com outro cara assim que nem tenho com você. Ela gostava quando ele dizia gozado, você parece uma pessoa que eu conheço há muito tempo. E de quando ele falava calma, você tá tensa, vem cá, e a abraçava e a fazia deitar a cabeça no ombro dele para olhar longe, no horizonte do mar, até que tudo passasse, e tudo passava assim desse jeito. Ele gostava tanto quando ela passava as mãos nos cabelos da nuca dele, aqueles meio crespos, e dizia bobo, você não passa de um menino bobo".

(Caio Fernando Abreu)

terça-feira, 17 de março de 2009

"Depois do fim"

Os meus verbos já não tocam seus ouvidos
não confesso o que sinto há muito tempo,
Os meus pés, de tanta busca, estão feridos
minha alma se calou sem argumentos.

Já não faço mais questão de ser saudade,
mas saudade nunca foi nem é escolha.
Minha vontade fraca e parca é só uma folha,
carregada ao nome seu que é tempestade.

Os meus versos já não tocam sua leitura,
mas me deito em minhas letras imprecisas
e me entrego débil,
à força da loucura...

[,minhas]

.
"Que imensa miséria o grande amor - depois do não, depois do fim - reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas."
.
[Caio Fernando de Abreu]

domingo, 15 de março de 2009

"Desde o dia em que ouvi o barulho da porta batendo,
fiquei anos sem ouvir barulho de porta batendo,
o médico diz: é surdez!
eu digo: é que nunca mais abri as portas."

(Bruna Beber)

sábado, 14 de março de 2009

Mudança

Fazer cócegas na tristeza pra ela rir até soluçar,
Deixar ela sem ar até virar alegria,
Pegar a agonia pelas pernas, derrubar!
Rolar com ela no chão pra ela ver que o coração não é lugar de se acampar,
Vou sair gritando alto, vou tomar meu peito de assalto e seqüestrar as mágoas tantas...
Regar, como com as plantas, o sorriso meu e dele
Depois coloco num vaso,[nada acontece por acaso!]
Exposto numa janela

É que por mais escondido,
Esse amor que não é percebido,
Hoje não cabe em nenhuma cela...

[,minhas]

quarta-feira, 11 de março de 2009

Bilhete!

Então saiba muito, sabendo bem pouco,
Não vou ficar rouca só pra te contar!
[da revolta do mar, do som, do barulho
do quanto eu mergulho sem querer voltar...]
Quando falta o ar, de olhos fechados
Com o risco do lado e você por miragem
Mais me afasto da margem,
Mais ao fundo me lanço...
É que nunca me canso de tê-lo em segredo
E se nunca te alcanço meu bem...
É por zelo,
E por medo!


[, minhas]

terça-feira, 10 de março de 2009

Frêmito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que me não amas...

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas...
-
(Florbela Espanca)

segunda-feira, 9 de março de 2009

Cicatriz

Meu nome é tatuagem impressa na alma dele
é sentinela, é vontade permanente...
marca feita a ferro quente;
[após a dor, a cicatriz]
é força que contradiz o que reza o velho ditado
nem todo mal jogador está isento da dor
nem é,
no amor,
felizardo.
-
[, minhas]
"- ... Mas queria uma coisa nas mãos agora.
- Você tem uma coisa nas mãos agora.
- Eu?
- Eu."

.
[Caio Fernando de Abreu]

sexta-feira, 6 de março de 2009

Outono

É outono nos dias da minha tristeza,
e há folhas caídas forrando meu chão
de um passado insalubre, infértil, em vão
do abraço cansado da minha frieza;
A calçada esqueceu de teus passos pequenos
desenhados na água ao lado dos meus,
A pracinha esqueceu teus sorrisos serenos
e meus olhos aguados do medo do adeus;
É outono...
esqueço meu próprio sorriso que dias assim insistem não ter.
É outono...
esquecer é tudo que preciso.
-
[, minhas]

quinta-feira, 5 de março de 2009

Certezas.

-
"Essa distância vai nos fazer bem,
Quem sabe você cruze com alguém
Com o toque mais calmo que o meu
E que não tenha olhos como os meus
Alguém com menos manias apaixonantes...
Um novo rosto para colocar na tua mente
Pode até ter algo parecido;
Mas o cheiro, esse será diferente...
Alguém que também te faça rir,
E que esteja sempre preparada para teus pedidos
Que segure seu rosto com as duas mãos, e te beije docemente,
E prenda suas mãos firmes entre as dela
Que não te faça ficar triste nem um instante
Que tenha uma paixão firme e constante
Porque já não me agrada ficar a tua mercê
Quero um amor que me faça viver
Como você fez algum dia...
Devo confessar que faz falta
Estar contigo.
Lembra como era fácil chegarmos ao paraíso?
Mas devo entender,
Que não sou quem você espera
Que meu “nós” não será contigo
Que não irá comigo até o paraíso
Posso partir no fim do dia
Mesmo querendo ficar
(Como eu gostaria de poder ficar...)
Mas quero te ver sorrindo
E teu caminho não é o meu caminho..."
-
[Texto de Cah Morandi, com adaptações, e grifos meus.]
-
"Os amores antes de chegar, deviam me enviar cartas avisando com antecedência sua visita em minha vida, ou então um telefonema com ligação a cobrar, ou sinais de fumaça, ou pombos com recados, ou garrafas jogadas no mar. Mas que desse um jeito de me comunicar de sua dolorosa chegada, para que antes eu preparasse o terreno, tá entendendo? É, arrumasse a casa aonde moro e a casa da aonde moram meus sentimentos, dispensasse outras possíveis visitas, orasse pedindo sol e calmaria por todos esses dias que o amor ficasse, tirasse o pó acumulado sobre as esperanças, me prevenisse dessas dores de parto. Sim, dores de parto, parto duplo: uma nova vida chegando e já com alguma pretensão de logo partir."
-
(Cáh Morandi)

quarta-feira, 4 de março de 2009

Vazio

Meus poemas tinham melancolia
uma cadeira vazia
frases rimando você

E tinham tanta agonia, eu,
em madrugada fria
sem saber o que fazer.

-
[,minhas]

terça-feira, 3 de março de 2009

Confissão

O que me compõe é tudo o que minha alma já viveu.
É tudo o que meu corpo já sentiu.
É o que eu me lembro, sonho, sinto:Amores, dores... Medos, vícios.
É o que eu crio para mim
E o que eu tiro... Desmorono...
E o que fica é só o verdadeiro:
Componho-me.

O que me habita é tudo o que eu consinto.
Tudo que é intrínseco, eu convivo.
Todos os “eus” me habitam
E todos eles gritam...Fugas, fogueiras, fuzuês...
Habitam-me todos os sexos...Crenças, cores, quereres...
E eu não fujo:
Habito-me.

O que eu conheço é o que eu busco
E eu busco só o total...O que toca fundo, o que tem sentido.
Meio termo, meio passo, meio vivo;
O meio me faz mal.
Quem não se conhece aceita qualquer coisa...
Não conheço o caminho,... Mas hei de seguir...
Não sei do mundo, mas sei de mim:
Conheço-me.

O que eu permito é tudo que me eleva
Se não engrandece, não me acrescenta: desce!
A luz e a sombra me somam, me mostram, me são.
Sou o doce e o veneno, não há o que escolher...
Verso e inverso, yin-yang, eu me completo.
Não me tiro:
Permito-me.

Tudo que minha alma já viveu me compõe
E o que me compõe habita em mim
E o que habita em mim, eu conheço
E o que eu conheço eu permito
E o que eu permito, é.
Eu Sou.
Permito-me!
-
[Carolina Salcides]

domingo, 1 de março de 2009

Sobre a impossibilidade das coisas.

(...)
“Meu coração é o mendigo mais faminto da rua mais miserável”.
E hoje, não só sente fome, como arde, e lembra todos os dias daquelas noites onde não havia distância. Eram apenas duas almas interligadas por um sentimento avassalador. E apenas duas pessoas neste mundo sabem como estes breves e fugazes instantes foram especiais e intensamente vividos.
“Meu coração é um anjo de pedra com a asa quebrada”.

E neste momento estou fazendo a reabilitação da asa, e reunindo forças e energias. Para mais...
Apesar do gosto amargo da impossibilidade. Apesar de amar desse jeito trôpego e confuso, sem saber como, nem onde. Mesmo quando as pernas são vacilantes...

“Encho-me dum leite de versos, e sem poder transbordar, encho-me mais e mais”.
Só sei amar assim. “Como quem desaba sobre o outro, como uma chuva forte”.
-

[As frases "entre aspas" são de Olga Savary, Maiakovski, e Caio Fernando de Abreu.].