sábado, 28 de fevereiro de 2009


"(...)Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos e com mais força enquanto a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais forte, parece que vai ficar assim clack! E quebrar em cacos, o pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansada, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack de madrugada, e eu me veria catando cacos de vidro entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que a ilha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas que são bonitas. Parecem filme, livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra."
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[Caio Fernando de Abreu]

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Ter...

Tenho um gosto em minha boca,
de estilhaços de beijo abandonado...
E tenho unhas que rasgam tua roupa
sempre que faz silêncio e olhos fechados

Tenho um medo que é pálido, mas certo
e que é grito em letras absurdas,
quando a nossa distância te faz mudo
minha âncora sede e te faz perto;

Tenho um frio que sinto enquanto calo
outro frio ao calar a tua voz
de um minuto de luto ou de intervalo
mas do frio não sobra nada em nós
pois o que queima é forte,
e num estalo
a condenada faz ceia do algoz...

[,minhas]

Elas...

As palavras servem, antes de mais nada, pra esconder o que se sente, pra que não fique transparente o que a gente quer esconder, e pra gente poder fazer de conta que nunca se importa quando a dor invade e corta, quando o caos carrega a alma, quando a gente perde a calma [então a palavra serve pra esconder que o sangue ferve] e que a gente quer mesmo é chorar...a palavra dura e seca faz o outro acreditar, que a gente é feito de aço, que a gente suporta o fracasso, que a gente nunca perde o ar.

[,minhas]

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Apetite

Só queria a coisa antiga da simplicidade
como quando era sem dor,
como quando mão na mão...
como quando intuição,inda ajudava eu me achar.
queria o cheiro inocente da chuva
encaixando como luva na despedida do sol
e o sentimento incomparável
daquela atenção amável me cobrindo com o lençol
queria a proximidade, deixando sem graça a saudade
no final do longo dia...
Queria você aqui, no quadro que eu colori
barco, [pele em travessia]
como quando se entregar era sem medo
e salutar nunca assim, à revelia
E é você que faz do peso do asfalto, arco-iris, pluma leve
e me leva como que encanto, barco à vela
o sorriso,o riso dele,
e me faz lenta,
e me traz calma,
o dono daquela palma.

[,minhas]

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Despojado do que já não há
solto no vazio do que ainda não veio,
minha boca cantará
cantos de alívio pelo que se foi,
cantos de espera pelo que há de vir.
[Caio Fernando de Abreu]


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Nosso tempo.

Quanto tempo inda tenho pra fazer você em rima?
o tempo de um abraço, um beijo,
de um relâmpago, um lampejo
do rascunho à obra-prima?
E nesse tempo, te resumo ou me estendo?
quanto tempo ainda me resta pra fazer você de rima?

...vem, bem antes que venha o fim.
Desnude tu'alma em mim
que o amanhã se aproxima...


[, minhas]

domingo, 22 de fevereiro de 2009

"Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que eu tinha, era seu."
[Caio Fernando de Abreu]

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

...Um motivo?

Dá-me um único motivo pra eu dizer o que sinto;
pra sair do meu recinto expondo-me a sua prova,
e deixar os riscos,
rascunhos,
recados,
e cartas que não serão lidas
de alegrias tão doídas,
de dores tão agradáveis
de fomes indispensáveis do gosto da boca sua;
então me diga,
à luz da lua,
pelo menos um motivo pra que eu seja objetiva
e saia gritando na rua,
porque tornei-me sua cativa.

[,minhas]

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A.P.S...



...Ele que é dono dos segundos onde uma única palavra de ternura reconstrói o espírito.
www.arteparasubsistencia.blogspot.com/



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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

- Devíamos ter mais opções de escolha.
- Como assim?
- Escolher de quem gostar, por exemplo...
- Isso não dá.
- E se desse, o que você faria?
- Ainda assim escolheria você.

(Cáh Morandi)

domingo, 15 de fevereiro de 2009


(...) Sabe qual é o meu sonho secreto? Que um dia você perceba que poderia ter aproveitado melhor a minha companhia (...) E eu me limito a me surpreender com as circunstâncias da vida que me levaram a viver esse papel: o da mulher que quer mais um pouquinho. Constrange-me existir nesse personagem Chico Buarque, dolorida, bonita sendo assim, meio tonta, meio insistente, até meio chata. E que fique claro que não é por estar você dessa forma, tão esquivo, que o desejo tanto. Desejo-o porque desejo. Estúpida. Latina. Bethânia. Ainda creio que você, quando eu menos esperar, possa me chegar com um verso em atitude.

[Fernanda Young -“Aritmética”]
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sábado, 14 de fevereiro de 2009

Incompletude'

...saiba que meu coração, amanhã, vai cansar
da falta, da ausência, da sede, da fome
do excesso, distância, da falta de ar
das coisas intensas, sangrando sem nome
dos medos, vontades, imagens pulsantes
que vêm como caça em vôos rasantes
com mira certeira [impossível errar]
mas ainda cansado, ele irá colher flores
na beira da estrada rochosa e injusta
onde quedam sentados almas incolores
é que ele agora sabe quanto custa
seguir sem saber se há pote de ouro
é o próprio caminho o real nascedouro
da pura alegria tão cheia de cores...

[,minhas]
"— E você, por que desvia o olhar?

(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarra-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos)


[Rita Apoena]

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Amanhã...

-
"Querer gostos. Pensar no impossível. Suportar o intragável. Ser perspicaz. Não cair na inexpressividade. Apreciar o inusitado que me soa peculiar. Fitar o céu. Ler. “Ter” o barulho da chuva. Ansiar por um abraço, e tê-lo. Ter mais respostas que perguntas. Ver os outros. Falar o que quero. Calar o que me é singular. Apreciar o plural, e gostar da singularidade. Enlouquecer com um toque. Rir com uma única palavra. Ser perseguida pelas incertezas.
Observar, observar, e observar."

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009



”Nunca disseram adeus, nem até mais, nem qualquer outra coisa que desse possibilidade de um fim ou de um próximo encontro; terminavam as conversas com beijos, quando mais frios com abraços. Talvez ele a ame. Talvez ela quisesse saber disso. Por causa da mudez das emoções que sentiam, eles não sabiam que destino davam a si. O bonito deles é a coisa mais simples em suas histórias: de alguma forma silenciosa e cheia de esperança, eles esperavam um pelo outro, embora nenhum pedido tenha sido feito.”

(Cáh Morandi)
[...]
É uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. Destruir antes que cresça. Com requintes, com sofreguidão, com textos que me vêm prontos e faces que se sobrepõem às outras. Para que não me firam, minto. E tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também. Não queria fazer mal a você. Não queria que você chorasse. Não queria cobrar absolutamente nada. Por que o Zen de repente escapa e se transforma em Sem? Sem que se consiga controlar.


(Caio Fernando Abreu)

Minha vontade.

" Essa vontade tão ingênua e infantil
de ser único papel na tinta dele
toda a cor que ele usou na aquarela
ao pintar seu sentimento mais febril
E esse querer ser todo ar que ele respira
ocupar cada segundo em seus ponteiros
ser cada gota de suor que ele transpira,
cada cena e movimento em seu roteiro.
E se não sou, me entrego a torpe histeria
faço eu mesma de minha vida objeto
transformando balé em paralisia
esqueço o doce e suave gosto do afeto
por querer ser tudo em sua poesia
morro em mim: cansada, triste e incompleta."

[, minhas.]

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

"Alma"

[...]


Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.
(Clarice Lispector)